Floresce — Uma plataforma que conecta quem tem a quem precisa

Como propusemos uma solução para promover a continuidade da educação de crianças e adolescentes, através de doações de materiais escolares para que cresçam e floresçam na sociedade.

Esse é um estudo de caso colaborativo, desenvolvido em uma equipe de quatro pessoas, como parte da Season 1 do Programa de Formação do Grupo FCamara, em março de 2021.

O desafio

A problemática lançada pelo Grupo FCamara foi a seguinte:

“Os preços de materiais escolares aumentam semestralmente, e sabemos o quão complicado é para que os pais arquem com custos cada vez mais elevados. Quando falamos na educação da rede pública de ensino, as dificuldades são ainda maiores e podem estar relacionadas a diversos fatores.”

O Grupo apresentou uma proposta inicial, que supostamente resolveria esse problema:

Tivemos a ideia de criar uma aplicação onde os pais irão cadastrar seus filhos que estudam em escolas estaduais e municipais, e também a lista de material escolar que precisam e não tem condições de comprar. Usuários avulsos e anônimos podem acessar, buscar a escola com base em alguns critérios de busca, visualizar a necessidade dos alunos carentes e fazer a doação dos itens que um determinado aluno esteja precisando.

Essa fala abre brechas para diversos questionamentos, principalmente quando estamos lidando com um estudo de caso. É aqui que começa o processo de descoberta, porque devemos apresentar ao cliente a melhor solução para o problema. Ou seja: uma solução que resolve um problema real, justificada com base em dados de pesquisa, alinhada às necessidades dos usuários e aos objetivos de negócio.

Descobrindo o problema

Lembra que eu falei da abertura de diversas brechas e questionamentos na proposta de solução que nos foi apresentada? Pois bem, vamos falar mais sobre isso agora.

Nas primeiras reuniões de alinhamento da equipe precisei assumir a frente para explicar o processo de Design Thinking: o Double Diamond, sua importância e seu papel na resolução do desafio.

O processo do Double Diamond, resumido.

Criamos uma página para o time no Notion para que nos organizássemos com mais facilidade, registrando toda a documentação do projeto. Organizamos, então, uma Matriz CSD com todos as nossas principais dúvidas, suposições e algumas certezas (que vieram de uma rápida desk research sobre o cenário tecnológico). Você pode conferir a nossa matriz inicial aqui.

Resumindo o processo, as principais suposições e dúvidas mais relevantes para o projeto envolviam:

  • como está a questão dos preços dos materiais escolares e quem são os principais afetados;
  • se a falta de materiais escolares está, de alguma maneira, relacionada a evasão escolar;
  • se existem iniciativas públicas ou privadas atuando, de alguma forma, com doação de materiais escolares para crianças e adolescentes estudantes da rede pública de ensino.

Na desk research, descobri que a alta nos preços dos materiais escolares pode variar em até 1.000%, dependendo de loja para loja e por região do país. A falta de matérias-primas como plástico, papel e tintas juntamente com a flutuação do valor do dólar, impactam significativamente no aumento do preço dos materiais básicos escolares. Inclusive, segundo uma pesquisa realizada pelo Impostômetro, a carga tributária sobre o valor total desses produtos pode chegar a 49,95%.

E quem são os mais afetados por tudo isso? As famílias das classes C, D e E, principalmente pelo aumento da taxa de desemprego devido a pandemia de COVID-19. Para remediar isso, existem algumas campanhas de arrecadação de materiais escolares, novos e usados, realizadas geralmente em início de ano letivo por iniciativas públicas e privadas. Infelizmente, essas ações (sejam elas individuais ou coletivas) não chegam à todos que precisam.

O ensino remoto também é um ponto relevante para contextualização do nosso problema, pois dispositivos como celulares e computadores também se tornaram materiais que fazem parte da rotina escolar. A falta de acesso a esses dispositivos, e até mesmo acesso a internet, é um fator que está relacionado a evasão escolar: se as crianças e adolescentes não tem essa disponibilidade em casa, como podem acompanhar as atividades e continuar a estudar?

As pesquisas de fato

Com esse processo até aqui, chegamos à conclusão de que teríamos duas proto-personas:

  • Alguém que é mãe/pai/responsável por criança(s) e/ou adolescente(s), em idade escolar (de 4 a 17 anos) que frequentam escolas da rede pública de ensino;
  • Alguém que já fez ou faz doações de objetos novos e/ou usados.

Com isso em mente, estruturei dois questionários de pesquisa para validar ou invalidar nossas suposições, identificar as dores e necessidades reais das pessoas e entender se aquilo era realmente um problema. Você pode ver as perguntas acessando os links abaixo:

Lancei os questionários no Linkedin, em grupos de WhatsApp, Telegram e em grupos de doação no Facebook. Em um cenário real, pesquisas como essas devem ter diversos critérios para sua realização. Essa não é uma prática recomendada pois os resultados já podem vir enviesados por muitos motivos diferentes. Eu tenho bastante ciência disso, mas como esse é um caso de estudo e aprendizado, era o que havia disponível no momento.

Nos questionários, consegui recrutar algumas pessoas para entrevistas de profundidade. Uma dessas entrevistas trouxe insights bastante pertinentes, pois foi realizada com uma persona real. Depois de analisar todos os dados consegui identificar alguns padrões:

Padrões identificados nas pesquisas, não consegui trazê-los de forma mais “gráfica” pois não consegui.

Desses padrões, temos finalmente, nossas duas personas principais:

É importantíssimo ressaltar que, apesar da brincadeira dos nomes associados a personagens de séries, todas as informações das personas são resultado da análise e cruzamento de dados das pesquisas e entrevistas realizadas. Estão priorizadas aqui as informações que são relevantes de alguma forma para o projeto.

Apresentei os dados das pesquisas e as personas ao time, pois assim conseguimos “ver” os nossos usuários, identificando suas dores e necessidades. Ao analisar os resultados, entendi que existem extremos dentro dos perfis e que ainda há muito para ser investigado, mas que nesse caso teríamos que dar continuidade ao processo com o que tínhamos em mãos.

Procurando por propostas similares ao que tínhamos começado a imaginar, listo aqui os principais concorrentes (diretos e indiretos) analisados:

  • Alguém quer?
  • Tem açúcar?
  • Enjoei
  • OLX

Analisei diversos pontos de usabilidade, funcionalidades e fluxos de uso, que trouxeram insights muito relevantes para que começássemos a pensar em ideias mais viáveis de solução em questões de negócio.

Identificando oportunidades

Utilizamos as personas para a criação de um Canvas de Proposta de Valor, utilizando post-its virtuais no Miro. Assim, pudemos visualizar as dores dessas personas de maneira mais direta, pensando em como poderíamos resolvê-las.

Canvas de Proposta de Valor — Pamela e Cecilia.

Com isso, comecei a pensar em alguns planos mais “estratégicos” relacionados à nossa ideia, utilizando o Business Model Canvas.

Business Model Canvas do projeto.

No geral, essa ferramenta nos ajudou a definir nossa proposição de valor como sendo: promover a continuidade à educação de crianças e adolescentes através de doações de materiais relacionados a atividades escolares.

Confira esse e os outros Canvas mais de perto aqui.

Utilizamos a Matriz Impacto x Esforço para priorização das funcionalidades da primeira versão e também como uma forma diferenciada de brainstorming, nem um pouco planejado.

Matriz impacto x esforço, que ajudou na priorização de funcionalidades.

Enquanto pensávamos na nossa solução, já validávamos questões técnicas de algumas funcionalidades que seriam importantes no projeto, como a interação por chat, por exemplo.

Nossa proposta de solução

Com a proposta de valor e a definição das principais funcionalidades, o nosso Mínimo Produto Viável ficou definido como uma aplicação web responsiva que conecta famílias de crianças e adolescentes em idade escolar que precisam de doação de materiais escolares com pessoas que tem/querem doar:

Floresce, porque crianças estudando são sementinhas germinando, prontas para florescer e mudar o mundo.

Fluxo de uso e interação da aplicação Floresce.

Antes de trabalhar com os wireframes digitais, comecei o processo nos meus companheiros de sempre: o lápis e papel.

Alguns “rabiscoframes” iniciais das telas.

Para avançar no processo, precisei priorizar a continuidade das telas já em média fidelidade, para não prejudicar o trabalho dos desenvolvedores devido ao prazo apertado.

Realizei dois testes de usabilidade, um deles registrado em áudio e vídeo, onde consegui identificar que a arquitetura da informação estava fazendo sentido, mas alguns ajustes foram necessários. Não foi possível dar continuidade nos testes para identificar potenciais problemas e erros de usabilidade, então os testes realizados serviram como validação do conceito da ideia.

Wireframes em média fidelidade no Figma.

Ao mesmo tempo em que finalizava os wireframes em média fidelidade, aplicava os ajustes já em alta, em um protótipo interativo no Figma. Assim, eu e os desenvolvedores trabalhamos ao mesmo tempo, construindo a aplicação juntos.

Nós decidimos priorizar o protótipo em alta fidelidade para lançar o produto rapidamente e iterar rapidamente. Preciso frisar aqui que essa decisão foi tomada pois não tínhamos tempo e nem recurso para desenvolver e testar. Em um cenário ideal, acredito que devemos sempre testar o mais rápido possível antes de começar o desenvolvimento, mas não foi esse o caso.

Não consegui terminar todas as telas e nem fazer uma adaptação responsiva para o mobile, mas aqui estão dois fluxos de interação, das duas personas: uma realizando a ação de anunciar um material escolar para doação e outra anunciando um pedido de doação.

Preciso ressaltar que não existe distinção de perfis de usuários na aplicação. Um usuário pode fazer tanto um pedido de doação quanto anunciar um material a ser doado, estabelecendo condições de entrega e especificando as condições de uso do mesmo, se é novo ou usado. O que muda são as informações necessárias para cada tipo de anúncio.

Imagens das telas em alta fidelidade de cada um dos fluxos de uso.

Fique a vontade para navegar em cada um dos fluxos clicando abaixo:

Nota: apenas algumas interações estão funcionais no protótipo, pois eu não consegui terminar todas as telas e funcionalidades possíveis, como uso dos filtros de busca, a landing page, tela de login, onboarding, tela de visualização de perfil, entre outras.

Conclusão e aprendizados

Aprendi muito sobre priorização de processos nesse projeto, devido ao prazo e às exigências das entregas e documentações, precisei adaptar o que sabia e aprender o que não sabia para não prejudicar o tempo de trabalho do resto da minha equipe.

Foi a primeira vez que fiz um Styleguide e uma organização propriamente dita de toda a guia de estilos de um protótipo em alta fidelidade. Não tenho certeza se essa organização apresentada aqui, por exemplo, está correta. Mas o que tenho exercitado diariamente é o mantra: feito é melhor que perfeito.

Aprendi muuuuuito sobre componentização, interações e processos de prototipação do Figma. Eu sempre fazia trabalhos de interface no Figma usando as tais “gambiarras”, mas o que consegui aprender nessas duas semanas do Hackathon foi o suficiente para que hoje eu tenha confiança ao dizer, se alguém me perguntar: agora eu sei prototipar no figma!

Nossa equipe, inicialmente, era de seis pessoas mas logo no início, dois dos membros desapareceram. Um deles, inclusive, era minha suposta dupla de UX Design. O time de desenvolvimento sofreu bastante pelo desfalque, pois nosso trabalho foi bastante corrido. Mas estivemos em harmonia durante todo o processo, sempre nos comunicando e apoiando uns aos outros. Isso só reforça minha crença de que trabalho colaborativo é capaz de mover montanhas.

Sobre o projeto em si, precisa de muitos testes e validações para iteração, ajustes e melhorias das funcionalidades (as pesquisas não podem parar!). Um teste muito importante que não consegui realizar, seria com pessoas de perfil low tech, pois foram identificadas nas pesquisas como sendo uma grande parte do público. Fica de aprendizado e de nota mental (nem tão mental assim) para refinamento da proposta :)

A equipe

Por último, mas nem um pouco menos importante do que o resto, a equipe que trabalhou exaustivamente nesse projeto:

UX/UI Designer
Stefany Langner: linkedin.com/in/stefanylangner/
Desenvolvedores
Karinna Ramos: linkedin.com/in/karina-ramos-775016173
Leticia Silverio: linkedin.com/in/leticia-silverio-72634a1b8
Thiago Adomaitis: linkedin.com/in/thiagoadomaitis/

Agradeço imensamente a esse grupinho, pois sem eles não teria conseguido. Esse projeto é de todos nós ❤

Designer apaixonada por experiências físicas e digitais, entusiasta da pesquisa e doida dos gatos.

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